"Sebastião Pinheiro,
engenheiro agrônomo e florestal, funcionário do Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS; membro do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Ação em Agricultura e Saúde (GIPAAS); ambientalista da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
Mundo Jovem: O que são transgênicos?
Sebastião: O produto transgênico (planta ou animal) é aquele organismo que recebeu, através de técnicas de manipulação genética, uma inserção de um gen de um outro ser. Em laboratório, técnicas muito sofisticadas, tiram um gen de um organismo e passam para outro.
E é por isso que se pode dizer que hoje é possível se passar um gen de um peixe para um mamífero, de um humano para um inseto. Portanto, teremos um ser transgênico quando se tira uma parte de um organismo de um ser e se passa para outro, através de meios artificiais, não naturais.
Mundo Jovem: Como é possível isto?
Sebastião: Todos os seres vivos estão constituídos por uma mesma unidade base, que é o seu DNA: uma minhoca, uma bactéria, uma águia, todos eles têm um DNA. Em todos os seres vivos, este DNA é idêntico, muito similar. Essa unidade básica que se constitui dentro do cromossomo, dentro do núcleo da célula, chama-se gene ou gen. É a partícula hereditária, que dá uma característica que a gente pode reproduzir de geração em geração.
Antigamente, quando um agricultor fazia um casamento de um jumentinho com uma égua, nós sabíamos que ele estava procurando criar, através deste cruzamento raro, um animal novo, que é o burro. E o burro é estéril. Na natureza, as espécies, quando se separam, vão criando mecanismos para evitar este tipo de casamento. Gato e cachorro são mamíferos, mas não podem se cruzar; rato e morcego não se cruzam. Hoje, com o transgênico, esta barreira está sendo rompida, de uma forma extremamente artificial.
Mundo Jovem: E o que é um híbrido?
Sebastião: Na natureza, quando duas espécies se acasalam, cruzam ou casam, ocorre um fenômeno genético. Um pé de milho tem a espiga, que é a parte feminina, e em cima, aquele pendão, que é a parte masculina. Se você pôr uma camisinha gigante em cima deste pendão e não deixar que haja cruzamento, pelo vento, ele vai se autofecundar. Se você plantar aquela sementinha que nasce dali, você vai ver que ela nasce menor, definhando.
Por que primo e prima não podem casar? Por que irmão e irmã não podem casar? Porque há uma possibilidade de combinar genes e nascer um monstro doido, todo aleijado. O híbrido é um casamento organizado entre duas espécies diferentes. Isto não tem nada a ver com transgênico. Transgênico é um mecanismo artificial de se extrair um gen. O transgênico é artificial e o híbrido é natural.
No transgênico, sempre, o filho vai ser parecido, vai transmitir suas características. Os filhos de híbridos, quando podem ter filhos, eles geralmente puxam características de um pai ou de outro, ou uma mistura de ambos.
Quando o agricultor tenta plantar semente de milho híbrido, que ele comprou, plantou e colheu, nasce um pé pequeno, um pé médio, um pé grande, um precoce. É uma bagunça. Ao passo que a semente do híbrido que você compra e planta nasce tudo igual, idêntico.
Mundo Jovem: Quais são as vantagens e desvantagens dos transgênicos?
Sebastião: As vantagens são relativas e as desvantagens são absolutas. Nós temos que nos preocupar com as desvantagens absolutas. Transgênico pode ser perigoso, sim. Nós não sabemos todas as conseqüências. Então, vamos devagar.
Em 1976, na Europa, começaram a alimentar as vacas com lixo, com carcaça de ovelhas mortas. Em meados de 1986, começou a doença da “vaca louca”. Demorou dez anos para se saber que carcaça de ovelha passava para a vaca uma doença perigosa. Só que, em 97, se descobre que a doença da vaca louca passou para humanos.
Passaram 20 anos para chegar no homem. Quando é que nós vamos saber que um transgênico causa mal? Vamos dar um exemplo: um pé de soja tem 27 trilhões de células. Todas as células da soja transgênica têm uma carga de DNA. Nesta carga tem uma série de elementos artificiais colocados. Vamos supor que uma só célula dê errado.
Quanto tempo você precisa para saber se vai ter uma epidemia, uma doença, uma catástrofe, um dano econômico, ambiental? Esta é a preocupação, o problema.
A vantagem é um mercado potencial de 30 bilhões de dólares.
Mundo Jovem: Existe o perigo do monopólio?
Sebastião: Nós temos hoje no Brasil um esquema de produção na agricultura muito fechado. Como é que se produz fumo? O fumo no mundo está na mão de cinco grandes empresas. Aqui no Brasil está na mão de uma grande empresa. O agricultor do fumo não tem liberdade.
O agricultor do futuro, com os transgênicos, será um agricultor em servidão, um tipo de escravidão consentida. Esse agricultor não terá liberdade e nem opção: faz o que a empresa manda. Isso hoje já existe no fumo, na celulose, na laranja paulista, no frango, no suíno. Amanhã, com os transgênicos, será em tudo, até na salsinha, porque vão dominar a semente, o adubo, o crédito, o transporte, tudo.
Mundo Jovem: Qual é o impacto do transgênico sobre a pequena propriedade?
Sebastião: A Monsanto, uma grande empresa do setor, já me deu a resposta: eles dizem que essa tecnologia não é para pequenos. Então, a minha leitura é que o pequeno vai sumir. No RS, por exemplo, teremos 400 mil famílias de agricultores fora da agricultura. Para onde estão levando estas famílias? Para a morte? Isto não é levado em conta pelas empresas que só querem o lucro.
O agrotóxico, dá lucro duas vezes: quando você usa, porque é caríssimo, e quando você trata de uma doença provocada pelo uso do agrotóxico.
Será que um suíço, alemão, sueco, com uma renda de 40 mil dólares, vai comer soja transgênica? Nós vamos ter um problema mais sério: vamos ter um alimento puro, de qualidade, classe A, por um preço alto, e vamos ter um transgênico para a classe Z, dos assalariados. Quem é que vai correr riscos? Vai ser um impacto faxista, sobre os mais pobres. Os europeus não compram transgênicos. Por quê? Porque viveram a experiência da vaca louca.
Mundo Jovem: Que mensagem você daria aos jovens?
Sebastião: Alguns meios de comunicação, para criticar quem questiona os transgênicos, dizem: Cuba tem transgênico, China tem transgênico. Só que o mais importante eles não dizem. Cuba investiu há 10 anos atrás dois milhões de dólares, que é um dinheiro altíssimo para eles, para obter equipes para produzir transgênicos para a saúde, medicamentos.
Quando você pega uma vacina, uma terapia transgênica, é diferente de uma planta. Quando eu tenho uma planta transgênica, ela se multiplica e ela está na natureza. É bem diferente. Eles não criaram plantas, criaram produtos. É bom o jovem saber, ler, se informar, não simplesmente ficar contra. Nós precisamos ter uma sociedade sabendo, não fazendo.
É fundamental que se saiba, que se pense, se crie. Vamos criar uma biotecnologia, transgênicos, se for necessário, para a saúde, magnífico, com toda a precaução. Agora, servir de repasse para mercado, isso não." Mar/2000
FONTE: http://www.mundojovem.com.br/entrevista-03-2000.php
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
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