"Uma tradição é mais e menos que uma história.
Menos: já que toda tradição supõe uma escolha, numa história, de elementos julgados característicos ou eminentes, o que supõe a exclusão de outros julgados secundários ou marginais. Tradere é transmitir, isso nunca se faz sem seleção nem perdas. A tradição é o que resta: é o resíduo sem os detritos, o sempre presente do passado, o sempre vivente dos mortos. A noção normativa, portanto, e por isso, subjetiva. Cada qual tem a história que pode, mas a tradição que merece.
É também por isso que uma tradição é mais que uma história: já que a escolha que a caracteriza se acrescenta à história que a contém e, nesse acréscimo, a prolonga. A noção ganha assim em compreensão o que perde em extensão. Uma tradição é uma história mais um ponto de vista sobre essa história. A historicidade é de fato, a tradição é de juízo: ela é o que a história retém de si mesma, e valoriza. É uma história julgada, como diria Bachelard...
André Comte-Sponville em "Uma Educação Filosófica" - Martins Fontes, p.69."
em: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.painel.asp?tp=73
sexta-feira, 6 de junho de 2008
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